
Sei que o Carnaval já passou faz tempo e todo mundo agora está em ritmo de Páscoa, chocolates, feriadões, enfim, assunto fora de hora. Mas como eu andei completamente out daqui, cabe voltar à ativa contando essa Odisséia carnavalesca, na mesma linha do post das
abelhas, sobre aquelas coisas que parecem só acontecer comigo.
Quem acompanha o blog e leu os posts anteriores, viu que eu estava vendendo fantasias de carnaval para os desfiles de algumas escolas de samba do Rio. Aquela coisa desesperada para ganhar uma graninha extra numa época de vacas mui magras, praticamente anoréxicas.
Como o post ficou gigantesco, vou dividir em atos, assim quem não tiver saco de ler tudo de uma vez, vai saber aonde parou.
Primeiro Ato:
Depois de passar 4 meses recebendo inúmeras ligações e e-mails, ouvindo as perguntas mais absurdas e as mais engraçadas, consegui vender algumas fantasias para turistas (brasileiros e estrangeiros). Na manhã do sábado de Carnaval, quando todos já tinham chegado ao Rio, lá fui eu entregar as fantasias em 6 pontos diferentes da Cidade, no meio de 1 milhão de blocos, ruas interditadas, turistas chegando de todos os lados, ponte Rio-Niterói caótica...
Eu mesma tive que ir porque demos o mole de não cobrar uma taxa de entrega pelas fantasias e terceirizar o serviço, como todo mundo faz, então tivemos que arrumar um morto de fome que cobrasse merreca, mas que não faria o trabalho sozinho.
As fantasias eram da Escola Porto da Pedra, em São Gonçalo e lá estavam, então minha sócia contratou um cara de Niterói para pegá-las e vir encontrar comigo na Leopoldina para começarmos as entregas.
Como toda boa neurótica, tinha localizado todos os endereços no Google Maps (amo muito isso), escolhido rotas alternativas, elaborado uma planilha com todas as informações das fantasias em cada local de entrega e imprimido (impresso, sei lá) tudo direitinho, só aguardando a hora chegar.
O nome do infeliz contratado era Edvan. Na sexta à noite liguei pra ele para marcar o local e horário para ele me pegar, quando ele me avisou que não conhecia praticamente nada no Rio... Senti uma pontada no peito, prevendo que isso ia ser mais difícil do que eu imaginava, motorista/entregador que não conhece a cidade, xiii... Mas lá fui eu, naquele calor saariano e trânsito infernal.
Assim que Edvan encontrou comigo na Leopoldina que eu olho para dentro da Kombi, vi um mar de plumas e tecidos coloridos até o teto e o banco da frente ocupado pelo pai do Edvan. Fiquei alguns segundos abestalhada, sem conseguir entender aonde é que eu ia entrar, até que o Pai (vou chamá-lo assim, porque ele falava um dialeto desconhecido por mim e até o final do dia não tinha conseguido entender o nome dele) se apertou no meio do banco da Kombi para abrir espaço para mim. Foi ai que eu pensei, FUDEU!!! Passei a tarde inteira espremida (detalhe que eu sou gorda de bunda grande) entre o pai do Edvan e a porta da Kombi, suando por todos os poros e inclusive dividindo eles com o coroa, tão suado quanto eu... ARG !! Não há nada mais nojento do que trocar fluídos corporais com desconhecidos (tirando beijo na boca de gente interessante, claro).
Segundo Ato:
A primeira entrega seria na Rua do Riachuelo, no Centro. Depois de levar 40 minutos entre a Leopoldina e o Estácio (trajeto normalmente feito em 5 min.), demos de cara com uma barreira de guardas municipais informando que os acessos àquela região estavam sendo fechados até a segunda de Carnaval por causa da passagem dos carros alegóricos das Escolas. A outra opção era ir por dentro de Santa Tereza (bairro cheio de ruelas todas iguais e que algumas acabam na favela) ou descer razoavelmente próximo e andar pela rua com várias fantasias. Ambas impraticáveis, decidi avisar à cliente que teríamos que encontrar um outro ponto para a entrega e partimos para a próxima parada, no alto Leblon.
A cliente ficou realmente muito chateada, mesmo com todos os argumentos e começou a criar um pequeno barraco telefônico. E eu espremida e engarrafada, trocando flúidos com o Pai... Imagina a minha tolerância para essa situação.
Disse a ela que iria pensar numa alternativa, ligando para informar depois e segui em frente, rumo à zona sul. Mas a mulher não parava de me ligar...
Terceiro Ato:
Continuamos num engarrafamento. Como o Edvan nada conhecia do Rio, tinha que ir ensinando passo a passo os caminhos. Uns 500 metros antes do túnel, eu disse: Edvan, basta seguir em frente que já entramos no túnel direto. Informação difícil de entender? Bom, pra ele foi.
Quando estávamos a 50 metros do túnel (visível, inclusive), o Edvan resolve pegar uma entrada à direita. A justificativa dele foi que o túnel não era bem reto, era levemente à esquerda, e ele supôs que tivesse outro túnel que não aquele, sei lá, e se enveredou pela tal subidinha que dava em uma favela. Nisso eu grito: Pára Edvan, tá errado, olha o túnel ali!
No Carnaval, a gente tem que ficar muito ligado, porque tem muita gente que rouba fantasia para vender no dia dos desfiles. E entra na favela seria certamente ficar sem as fantasias e sem a Kombi.
Edvan pára no meio da subida, meio sem entender o que tinha feito de errado e leva uma bronca imensa do pai, que mudo estava até o momento. Entendi que tinha sido uma bronca porque ele bateu no painel da Kombi, gruniu alguma coisa ininteligível naquele dialeto próprio e depois soltou a palavra EDVAN. Ai nesse momento eu percebi que Edvan era praticamente retardado e o pai tinha vindo para "tomar conta" dele. Ah, com essa bronca, percebi também que o Pai só tinha alguns dentes na boca.
Detalhe: não dava pra gente fazer um retorno rápido e sem passar pela favelinha, teria que voltar absolutamente todo o trajeto engarrafado de antes. A coisa tava piorando...
Quarto Ato:
Falo pro Edvan então dar uma ré, afinal a ladeira não tinha movimento nenhum, mas olhando pelo retrovisor, vejo uma cabine da PM bem no início dela. É claro que quando o Edvan foi dando ré o policial mandou parar e descer da Kombi. Chamou o Edvan num canto (eu vendo tudo pelo retrovisor) e sem ao menos pedir a carteira de motorista dele ou qualquer outro documento do carro, informa que ele tem que dar R$ 50,00 para passar, caso contrário iria prender a Kombi porque estava com a placa apagada. Pura mentira, o carro estava em perfeito estado, incluindo a placa, mas os filhas da puta queriam fazer o Carnaval deles às custas do coitado.
Volta Edvan pra Kombi com cara de choro, resume a história pra mim e pergunta se eu tenho a grana. Claro que eu não tinha!! Estava fazendo aquela merda de entrega porque estava precisando de grana, como é que eu ia dar 50 pratas praquele desgraçado?? E mesmo que tivesse, não daria. O que mais me enoja na polícia são os caras extorquirem gente honesta que paga imposto, sem ao menos fazer o trabalho deles, que é nos dar segurança.
Comecei a utilizar um mantra pessoal que eu criei para essas horas, onde repito inúmeras vezes para mim mesma: "Não se desespere, vai passar, tudo vai se resolver, não pense negativamente." E lá fui eu "conversar" com o policial...
"Boa tarde Policial. O que está acontecendo?"
Ele me explica que está ali para manter a segurança nas vias públicas e que a Kombi do rapaz estava irregular. Não me dizendo que tipo de irregularidade, claro.
"Entendo perfeitamente. Nessa época do ano o trânsito fica muito complicado mesmo e sei que a sua função é evitar acidentes, mas eu realmente estou desesperada, sem saber o que fazer. Esse é o segundo frete que eu pego hoje, o primeiro quebrou e só esse rapaz estava disponível para me ajudar nessas entregas (mentira deslavada). Nem sei ainda como vou pagá-lo, mas preciso entregar essas fantasias para alguns turistas estrangeiros em hotéis da zona sul, que estão me esperando desde de manhã, pois vão desfilar ainda hoje (história da carochinha total)."
Ele me diz que entende a minha situação, mas que está fazendo a obrigação dele. Em momento algum fala abertamente sobre a grana, como fez com o Edvan, mas dá a entender que vou ter que pagar para sair de lá.
"Eu fico muito satisfeita em saber que existem policiais sérios e preocupados com a segurança (quase vomitando, mas sem perder a chance de ironizar), mas eu lhe imploro ajuda. Se a Kombi for apreendida, o que vou fazer com as fantasias? Aonde vou arrumar outro frete? Como vou pagar um 3º frete? Já estou quase pagando para essas pessoas desfilarem... (fazendo aquela cara de menina desamparada, com olhos de cachorro caído da mudança) "
Depois de minutos de silêncio angustiantes, ele me fala que só vai liberar a Kombi por conta do meu desespero e situação complicada e que não quer atrapalhar o Carnaval de nenhum turista, mas que eu tenho que me responsabilizar pela regularização da viatura. E eu nem sabia qual era o "problema".
"Nossa, muito obrigada! O Senhor (vomitando mais ainda) não sabe como fico grata pela sua compreensão. Muito obrigada mesmo. O Senhor se importa da gente dar uma ré aqui, porque o Edvan nem mora no Rio e não conhece o caminho, ai pegou essa ladeira errado..."
Ai o policial diz que tudo bem, que a gente podia dar uma ré e pegar o túnel. Isso tudo, sem olhar pra mim, só olhando pra frente, de óculos escuros, fuzil na mão. E lá fui eu embora, com aquela sensação asqueirosa de repulsa, de me sentir lesada, agredida, impotente diante dessa pouca vergonha que se tornou a Polícia carioca. E ainda tive que implorar por uma coisa que não estava errada e o cara lá como se fosse Deus, com aquele fuzil na mão. Ô vontade de metralhar o Edvan, o policial, o Pai...
Quinto Ato:
Seguimos rumo à zona sul. Mais engarrafamento, mais Edvan pegando ruas erradas. Descobri que ele, como eu, tinha dificuldade em saber o que era esquerda e o que era direita. Logo no primeiro destino, o Pai não fecha direito a mala da Kombi e um saco com uma fantasia completa cai sem nenhum de nós ver, mas um vigilante de alma muito elevada vem correndo de moto atrás da gente pra devolver. O Rio também tem gente do bem, graças a Deus.
Nessa altura, eu já estava com tanta raiva do Edvan e tão siamesa com o Pai, que nada mais podia acontecer. Comecei a rezar para não furar nenhum pneu, nem quebrar nenhuma peça, senão certamente eu iria surtar como o Michael Douglas em "Um dia de fúria".
Sexto Ato:
Passaram-se 7 horas e a última entrega estava sendo feita. A primeira cliente estressada me deu um endereço alternativo de entrega e tudo ficou resolvido. Liberei o Edvan e o Pai e disse que dali do último hotel eu ia pra casa de ônibus. Não aguentava mais nem olhar pros dois.
Conheço os dois últimos clientes, umas graças de paulistas de Marília. Me ofereceram para ir ao banheiro (não tinha ido nenhuma vez, mas também o que suei agarradinha no Pai compensou), me deram água, conversamos um pouco, rimos bastante e eu morta, agradeço a preferência e vou embora. Ô céus, o Brasil tem gente do bem.
Entro no primeiro ônibus que me serve, lotado, todo mundo em pé. Vários foliões fantasiados, vindo de blocos, indo para a Sapucaí, uns cansados, outros ainda em ritmo de festa e uns bêbados inconvenientes, claro.
Quando o ônibus chega no meio do caminho, entram 4 caras pela porta traseira, sem pagar a passagem. O motorista pede educadamente para eles sairem, pois a Empresa demite os motoristas que deixam isso acontecer. Os caras dizem que não vão descer. O motorista diz que não vai sair dali e desliga o ônibus. O povo todo se alvoroça, todos loucos pra chegar em casa. Uns gritam (como eu) para chamar a polícia (será que para isso eles serviriam?), outro reclamam do absurdo já que todos ali pagaram a passagem e a confusão começa. Nisso, um dos camaradas levanta, com a maior cara de marginal, e ameaçadoramente pergunta quem é que tinha dito que ia chamar a polícia. E começa a andar pelo ônibus.
Ai todo mundo fica quieto (inclusive eu), com aquela cara murcha, amedrontada e os filhas da puta começam a andar pelo ônibus e perguntar quem é que ia tirar eles dali, que eles não iam pagar nada. Uma menina começa a reclamar que está cansada, que estava trabalhando e precisa ir pra casa, os vagabundos vão pra cima dela e começam a falar um monte de merda. Uma sapinha que tava atrás de mim com a mulher e o filho se revolta, começa a gritar para eles pararem de covardia, ai os caras mudam o foco e vêm pra cima dela (e eu exatamente na frente). A minha vontade era de levantar e enfiar a porrada nos caras, enlouquecer, pegar eles pelo cabelo e jogar pra fora do ônibus, mas o medo da violência me fez calar, amuar, acovardar. Me sinto um lixo humano.
Os outros vão até o trocador e tirando um bolo enorme de notas de 50 reais do bolso, dizem para ele pagar uma passagem de cada nota, ou seja, tirar R$ 8,80 de R$ 200,00. Claro que o trocador não tinha troco e disse que por lei não tinha obrigação de dar, ai os vagabundos começaram a falar baixinho pra ele: "Meu irmão, não arruma idéia, você vai passar lá pelo movimento, já anotamos o número do ônibus..." E eu do lado assistindo tudo, tendo que fingir que não estava vendo nada, me sentindo tão lesada/agredida quanto mais cedo, com o policial. E só pensava no meu mantra, calma já vai se resolver, e desesperada para ir para casa, mas intimidada até de levantar do ônibus e descer, porque os camaradas estavam na porta. E também não ia adiantar, poque não tinha dinheiro suficiente para pagar outra passagem.... Ô vida filha da puta!!
Alguns 20 minutos depois, chega enfim um policial, pergunta o que tá rolando, os vagabundos dizem que o trocador não quer receber, mas o policial astuto diz pra eles descerem, que não quer mais confusão. Desceram soltando ameaças entre os dentes, olhando nos olhos da sapinha, do trocador e da garota que reclamou, mas foram embora. Ainda existem policiais úteis.
E depois de 8 horas nessa Odisséia para ganhar uma grana nem tão significativa assim, eu chego em casa exausta, faminta, incomodada, enojada, com a fé na humanidade diminuída, imunda, grudenta e banhada de suor, meu e do Pai, que passou o restante do tempo mudo. A sensação era de missão cumprida, não tinha estragado nenhuma ilusão de Carnaval.
Depois recebi e-mail dos clientes agradecendo e dizendo que foi tudo ótimo, que adoraram, que ano que vem viriam novamente e tal. É bom, apesar de tudo, saber que fizemos as pessoas felizes. Ainda tem gente que valoriza isso.
Passei um tempo tendo flashes "traumáticos" daquele dia: do Edvan com cara de babaca, do policial corrupto, da boca sem dente e do suor do Pai escorrendo, dos vagabundos no ônibus... Nada demais para quem vive numa grande metrópole brasileira, mas não posso dizer hoje, que não tenha sido uma experiência sui generis.
Agora tem uma coisa, ano que vem só terá mais se eu tiver amnésia, me fizerem uma lobotomia ou uma lavagem cerebral!!
É bom estar aqui novamente, de corpo e alma.